ENTENDER PESSOAS: O FUNDAMENTO DO DESIGN

Entender pessoas é um dos fatores fundamentais do Design.

Mais do que entender o comportamento e preferências das pessoas, o Design se junta à psicologia para entender como os pensamentos são formados e que tipo de influências as pessoas sofrem no dia a dia.

Isso cria algo chamado zeitgeist, que nada mais é do que um termo alemão para “o espírito do nosso tempo”. A origem do termo não é muito certa, mas normalmente é associada à Goethe ou Voltaire.

Portanto, para entender como ou porque as pessoas fazem algo, é necessário olhar primeiro para o zeitgeist que move nosso tempo. A primeira pergunta que eu faço é: você acha que vivemos em tempos bons ou tempos ruins?

Neste ponto, eu acredito que a maioria diria em tempos ruins. Coronavirus espalhado pelo mundo, maior crise do petróleo desde a Primeira Guerra do Golfo, mudanças climáticas, pobreza, violência. 

Essa é a imagem que temos do mundo hoje. Mas por que?

Alguns fatores colaboram para que a nossa imagem do mundo moderno seja essa. Desde a virada para os anos 1990, muita coisa mudou. E talvez nós não estejamos sabendo acompanhar o ritmo destas mudanças quando se diz ao comportamento psicológico.

 

O EFEITO CNN

A Primeira Guerra do Golfo não marcou a última grande queda no preço do petróleo apenas. Ela transformou o modo como o jornalismo é feito no mundo.

Naquele período entre 1990 e 1991, a CNN revolucionou a maneira como as pessoas viam a guerra e também o modo como o jornalismo seria feito dali em diante. De um hotel em Bagdá, a capital do Iraque, a emissora americana transmitia a guerra ao vivo para seus espectadores.

Pela primeira vez, as pessoas podiam ver ao vivo o horror de uma guerra. E, pela primeira vez, uma emissora ficava 24 horas ao vivo transmitindo notícias. E isso mudou o mundo.

Hoje, além dos canais de notícia 24 horas, temos os portais de Internet. Somos bombardeados de notícia o tempo todo! A questão é: estão acontecendo realmente tantas coisas no mundo para gerar este volume de informação? Ou a imprensa acaba sendo repetitiva nos temas que aborda?

Repare no gráfico acima, extraído do Google Trends, como o aumento repentino de busca de notícias sobre o Coronavírus decolou junto com a massificação feita pela imprensa. Mas o que gera tamanha comoção em torno do vírus?

Deixando julgamentos médicos de lado, quanto mais a imprensa fala sobre o vírus estar se espalhando, chegando perto, sobre mortes e contágio, mais seu cérebro reptiliano se sente ameaçado.

E, quanto mais ameaçadas as pessoas se sentem, mais acontecem situações de “conflito ou fuga”. É a mensagem que nosso cérebro “mais primitivo” nos passa, de que estamos em situação de risco de morte. Mas será mesmo?

Ao olharmos para o gráfico do Instituto John Hopkins, que atualiza a situação do Covid-19 em tempo real, notamos que dos cerca de 113 mil casos, mais da metade já não estão ativos. E, dos existentes, mais de 90% estão em apenas 4 países.

Novamente, não estou aqui minimizando a doença e seu potencial para causar problemas. Nem tenho condições para fazer isso. Porém, em um planeta com 7.8 bilhões de habitantes, temos cerca de 50 mil infectados.

A pergunta que deixo é: qual é o papel da imprensa no pânico global que se vive em torno da nova gripe? Notamos como o efeito CNN, que tornou o mundo das notícias em algo imparável, propaga o pessimismo por aí.

Mas isso é proposital?

 

DAMOS MAIS PESO AO NEGATIVO

O comportamento da imprensa não é nada mais do que um reflexo de como funciona nossa cabeça. Informações negativas são mais marcantes do que as positivas para nós. Isso porque nosso instinto de sobrevivência foca mais nas ameaças do que nas coisas boas por aí, segundo Daniel Kahneman.

E, sim, notícias ruins são recebidas como ameaças. Se por um lado é bom reagir rápido a uma situação de perigo, por outro lado podemos ser manipulados pela sensação de medo espalhada por aí.

Em Rápido e Devagar, Daniel Kahneman disse que “más emoções, pais ruins e feedbacks negativos têm mais impacto que os bons, e má informação é processada mais duramente do que as boas. Más impressões e estereótipos são mais rápidos de serem formados e demoram mais para serem destruídos do que os bons”.

Isso dá força a outra viés importante no modo como tomamos decisões e olhamos para a vida: a aversão ao risco, também citada no trabalho de Kahneman. 

Basicamente, a maioria das pessoas recusa uma aposta tirada no bom e velho cara ou coroa, em que, se você vencer, leva R$ 150, se perder, paga R$100. Esta ancoragem próxima faz com que não assumamos o risco de perder os R$100, que seria uma dor maior do que o prazer em ganhar R$ 150.

E, quando se trata de notícias, o funcionamento do cérebro é o mesmo! Um exemplo dado por Steven Pinker, em seu livro Enlightenment Now, mostra que a maior parte dos americanos têm mais medo de morrer em um acidente de avião do que de asma. Claro, notícias de catástrofes aéreas causam um grande impacto.

Porém, na média, apenas 50 americanos morrem por ano em acidentes envolvendo aviões. Já a asma mata mais de 4000 pessoas nos EUA. O peso das notícias influencia o inconsciente coletivo.

E, quanto mais notícias ruins uma pessoa vê, maior a probabilidade dela ficar triste. E quanto mais triste a pessoa fica, maior a tendência dela continuar consumindo o mesmo tipo de conteúdo. Estamos vivendo um círculo vicioso em torno disso!

Ou seja: o efeito CNN somado ao viés negativo estão produzindo resultados catastróficos em nossa sociedade. Os que mais sofrem? Com certeza estamos falando da primeira geração nativamente digital, os millennials.

 

UMA GERAÇÃO PERDIDA?

Este ambiente de notícias negativas contrastando com vidas perfeitas nas redes sociais está deixando uma geração doente. Depressão e ansiedade são problemas que todos conhecemos alguém que tem.

Segundo um artigo publicado na Harvard Business Review, três pontos aumentam as expectativas dos millennials, que normalmente não são alcançadas.

Ideias falsas de que todos estão conquistando coisas e você não. Esse é o efeito que as redes sociais causam nas pessoas, que se sentem na obrigação de acompanhar o mesmo ritmo dos outros. Afinal, você precisa vencer na vida, não pode ficar para trás, não é?

Há também aquelas histórias de empreendedores de startups bem sucedidos. Se eles conseguiram, por que eu não consigo? Essa pergunta martela a cabeça das pessoas.

Por fim, há uma luta constante para alcançar o potencial que você tem. O que te obriga a estudar sempre, evoluir sempre, e ter uma carreira incrível.

O resultado disso tudo são pessoas doentes. Pessoas estafadas e que se afastam dos outros. É normal todos acharem que estão trabalhando demais. Mas esta é outra falácia dos nossos tempos.

Um estudo publicado pela University College London mostrou que hoje temos mais tempo para nossas atividades pessoais e mesmo para dormir. Nunca antes na história tivemos tanto tempo para nós mesmos!

Mas o que estamos fazendo com este tempo livre?

 

DESIGN PARA O ZEITGEIST

De fato, não estamos aproveitando este tempo livre para sermos mais felizes. O próprio Daniel Kahneman disse recentemente que nossa busca tem sido pela satisfação, não pela felicidade.

Comparamos o que estamos fazendo o tempo todo para criar uma medida de satisfação. E boa parte dos produtos e marcas desenhadas atualmente têm culpa neste processo.

Ainda existem apelos para que o consumo seja realizado sobre o medo, a insegurança e as crenças que as pessoas têm. Em um mundo fortemente dominado pelo viés negativo, as pessoas acreditam que precisam se proteger ou se posicionar para “ser alguém”.

Obviamente, pela nossa natureza humana, sempre procuraremos marcas, produtos e serviços como uma forma de nos expressar. O ponto importante é entender se você favorece uma atitude positiva, ou explora um medo coletivo.

O importante é pensar na responsabilidade de cada um como membro de uma sociedade e pessoas ligadas aos mais diferentes tipos de negócio. Afinal, estamos fazendo bem para nós mesmos?